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Dois Sertões e um Só Ato

Dois Sertões e um Só Ato

26/10/2025 às 12h25 Atualizada em 26/10/2025 às 15h25
Por: Contexto News
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Um viagem curta, da altura da janela do carro em deslocamento uma cena chamou-me a atenção. A caatinga vestida de cinza, era vasta, dolorosa e prenúncio de uma seca que se prolonga no sertão paraibano. É bem verdade, que toda aquela paisagem me fez relembrar uma palestra que ouvira, sobre o processo de desertificação do sertão, tudo era nítido e fazia sentido, agora. Lembro que brincara na ocasião da palestra que até os "calangos" haviam desaparecido do sertão-deserto. Um pouco mais a frente e o cinza foi quebrado pela teimosia de um enorme pé de manga, espalhando sua longa sombra, ora um oásis no sertão?!? Tudo descrito até agora é mero acessório, que esconde a cena principal: "o vôo dos urubus". Era cedo da manhã, e no aeroporto natural, de asas abertas levantavam o seu vôo da sobrevivência. Aquilo que para alguns era fétido e desprezível, para os urubus, um banquete, talvez o único do dia ou da semana, por isso, tão ligeiros estavam mergulhando naquela comida em putrefação. A distância não permitia observar o que era o cardápio dos pássaros, pouco importava, a julgar de longe algum pobre animal, vítima da seca, da fome ou da doença ou somatório de todos os aspectos levantados. A viagem continuou... E, por um instante, a cena como num ato teatral chegara ao fim. Ledo engano. Para um cronista, o fim nunca acaba. E, me pus a perguntar aos meus velhos botões, como a força daquela cena ainda impactava, a típica cena do sertão sofrido, contrastando com as antenas parabólicas ou fiação da internet nas poucas casas à beira do caminho. Dois sertões e um só ato, no apagar das luzes ou do luar do sertão, só me restou ver no vôo dos urubus a resiliência teimosa de quem enfrenta as dificuldades, brigando com sua própria natureza, contestando o status co e inaugurando no corte da existência, o caos criativo, metafórico e crível. Os urubus ficaram para trás, devorando tudo. E, a desertificação ficou como rascunho de um mundo em mutação. O meu mundo, o meu sertão, que ainda acredito, como cantado na música, um dia vai virar mar. Carlos Ferreira da Silva | Contexto News *Os comentários emitidos pelos jornalistas, comentaristas e colunistas não necessariamente refletem a opinião da Contexto News, reforçam, entretanto, as liberdades de expressão e de comunicação.
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